sábado, 27 de setembro de 2008





Eu quero uma casa no campo
Onde eu possa compor muitos rocks rurais
E tenha somente a certeza
Dos amigos do peito e nada mais
Eu quero uma casa no campo
Onde eu possa ficar no tamanho da paz
E tenha somente a certeza
Dos limites do corpo e nada mais
Eu quero carneiros e cabras pastando solenes
No meu jardim
Eu quero o silêncio das línguas cansadas
Eu quero a esperança de óculos
Meu filho de cuca legal
Eu quero plantar e colher com a mão
A pimenta e o sal
Eu quero uma casa no campo
Do tamanho ideal, pau-a-pique e sapé
Onde eu possa plantar meus amigos
Meus discos e livros
E nada mais

sexta-feira, 26 de setembro de 2008

Despedida


E no meio dessa confusão alguém partiu sem se despedir; foi triste. Se houvesse uma despedida talvez fosse mais triste, talvez tenha sido melhor assim, uma separação como às vezes acontece em um baile de carnaval — uma pessoa se perde da outra, procura-a por um instante e depois adere a qualquer cordão. É melhor para os amantes pensar que a última vez que se encontraram se amaram muito — depois apenas aconteceu que não se encontraram mais. Eles não se despediram, a vida é que os despediu, cada um para seu lado — sem glória nem humilhação.

Creio que será permitido guardar uma leve tristeza, e também uma lembrança boa; que não será proibido confessar que às vezes se tem saudades; nem será odioso dizer que a separação ao mesmo tempo nos traz um inexplicável sentimento de alívio, e de sossego; e um indefinível remorso; e um recôndito despeito.

E que houve momentos perfeitos que passaram, mas não se perderam, porque ficaram em nossa vida; que a lembrança deles nos faz sentir maior a nossa solidão; mas que essa solidão ficou menos infeliz: que importa que uma estrela já esteja morta se ela ainda brilha no fundo de nossa noite e de nosso confuso sonho?

Talvez não mereçamos imaginar que haverá outros verões; se eles vierem, nós os receberemos obedientes como as cigarras e as paineiras — com flores e cantos. O inverno — te lembras — nos maltratou; não havia flores, não havia mar, e fomos sacudidos de um lado para outro como dois bonecos na mão de um titeriteiro inábil.

Ah, talvez valesse a pena dizer que houve um telefonema que não pôde haver; entretanto, é possível que não adiantasse nada. Para que explicações? Esqueçamos as pequenas coisas mortificantes; o silêncio torna tudo menos penoso; lembremos apenas as coisas douradas e digamos apenas a pequena palavra: adeus.

A pequena palavra que se alonga como um canto de cigarra perdido numa tarde de domingo.

Rubem Braga

Extraído do livro "A Traição das Elegantes", Editora Sabiá – Rio de Janeiro, 1967, pág. 83.

sábado, 20 de setembro de 2008

Eis que ela chega: A devassadora Tpm


Dia desses estava no salão de cabeleireiros, indiscutível na preferência das mulheres para discussões profundas e filosóficas acerca de assuntos corriqueiros tais como trabalho, casa, relacionamento e filhos; quando uma amiga comentou que seu filho lhe havia perguntado por que ela andava tão irritada. Nos contou, em meio a gargalhadas, que respondeu a ele: "Filho, a mulher tem três fases distintas no mês. Durante a primeira delas, ela quer matar alguém. Na segunda, ela quer se jogar de uma ponte. E na terceira, ela tem grandes possibilidades de realmente cometer um assassinato." O menino, temeroso, lhe perguntou em que fase ela se encontrava. "Na terceira", disse ela, ao que ele saiu em disparada e não foi mais visto durante o dia todo. Essa terceira fase é a imbatível Tpm, aquela na qual a mulher sente que todos as pessoas do mundo se uniram para fazer-lhe algum tipo de mal e minar sua auto-estima, destruir o que lhe resta de auto-controle, e contribuir para que seu dia se torne cada vez mais insuportável.

Comédia e exageros à parte, quero saudar essa grande companheira que veio me visitar hoje. Ela chegou de mansinho a noite passada, foi entrando sem bater e cá está. Deve ficar bem uns dois ou três dias, até que aquela outra visita, igualmente desagradável, mas muito menos prejudicial, o Xico, chegue. Apesar de trazer consigo sentimentos bastante negativos, a Tpm é uma companheirona. Faz-se sentir o tempo todo. Foi responsável por uma grande discussão na noite passada, uma discussão idiota e sem sentido, que acabou com todos os envolvidos magoados. Foi responsável também por um momento de muita irritação com um amigo hoje, que não merecia minha falta de educação. E por um dia todo largada na cama, chorando por qualquer comercial de margarina.

Engraçado o poder que os hormônios exercem sobre as mulheres. Sabemos o que se passa, é a Tpm, sabemos que é passageiro, dura somente dois ou três dias, mas ainda assim nos foge a solução para esses repentes. Lá no fundo, sabemos que a culpa não é das pessoas que "nos irritam", que não estamos tão feias e tão gordas quanto achamos, que nossas amigas não estão tentando nos sacanear. Mas a razão diz uma coisa, e a emoção outra. A gente até racionaliza: "Nossa, preciso me controlar, a tpm esse mês tá demais", mas é impossível. Sabe aqueles desenhos animados, nos quais o personagem tem um diabinho em seu ombro, dizendo que ele tem que ser uma pessoa má? Pois é, a Tpm é esse diabinho, se aloja em nossos ombros por dois dias, e fica repetindo em nossa orelha, o tempo todo, coisas do tipo: "Você é feia!", "Tem certeza que vai repetir, olha o tamanho que você está!!!", "Ninguém gosta de você, por que uma pessoa tão legal iria se interessar verdadeiramente por um lixo desses?", "Você não vai reagir? É uma tonta mesmo, por isso todo mundo te faz de palhaça", e otras cositas más.

Sempre ouvi que mulher grávida fica sensível... Que tem que poupá-la, cuidar dela, dar-lhe atenção.... Mas discordo. Pelo menos no meu caso, fico muito mais sensível durante a tpm do que quando estava grávida. Infinitamente mais. A gravidez foi um momento lindo, de muita fé renovada, muito carinho, muita atenção. Ao passo que a mulher em tpm é a frustrada, a irritada, a chata. Ninguém suporta mulher em tpm. Nem ela se suporta. E isso acontece uma vez ao mês.

Da mesma forma que chega, de repente, vai embora. E então, a mulher-fênix ressurge das cinzas, faz o cabelo, as unhas, se depila, compra uma roupa nova, sai linda e perfumada, segura de si, com a auto-estima renovada....

Quero ser sempre essa aí. Não quero ser a chata em tpm. Decidido, a partir desse mês não menstruo mais. Cara amiga, prepare-se, essa é a última visita que você me faz durante um bom tempo!!! Vade Retro!!!

quinta-feira, 18 de setembro de 2008

Os Ninguéns

















As pulgas sonham com comprar um cão, e os ninguéns com deixar a pobreza, que em algum dia mágico a sorte chova de repente, que chova a boa sorte a cântaros; mas a boa sorte não chove ontem, nem hoje, nem amanhã, nem nunca, nem uma chuvinha cai do céu da boa sorte, por mais que os ninguéns a chamem e mesmo que a mão esquerda coce, ou se levantem com o pé direito, ou comecem o ano mudando de vassoura.

Os ninguéns: os filhos de ninguém, os donos de nada.
Os ninguéns: os nenhuns, correndo soltos, morrendo a vida, fodidos e mal pagos:
Que não são, embora sejam.
Que não falam idiomas, falam dialetos.
Que não praticam religiões, praticam supertições.
Que não fazem arte, fazem artesanato.
Que não são seres humanos, são recursos humanos.
Que não têm cultura, têm folclore.
Que não têm cara, têm braços.
Que não têm nome, têm número.
Que não aparecem na história universal, aparecem nas páginas policiais da imprensa local.
Os ninguéns, que custam menos do que a bala que os mata.



Eduardo Galeano

sábado, 13 de setembro de 2008

Desabafo

Há muito tempo não assisto televisão, principalmente canais abertos. Gosto de alugar filmes ou ver sitcoms na TV por assinatura. Por acaso hoje a TV estava ligada na Rede Globo, o Fantástico no ar, e comecei a prestar atenção. O programa estava anunciando uma matéria a respeito do relacionamento entre mães e filhas. Sob a ótica das filhas. Mostraram comunidades criadas no Orkut: "Minha mãe é neurótica", "Minha mãe grita por qualquer coisa", etc etc e tal. E entrevistaram as adolescentes, que diziam que as mães eram estressadas, brigavam por nada... Uma delas disse que a mãe gritava com ela por que pedia que ela lavasse a louça e ela queria ficar mais um pouco no computador. Depois entrevistavam supostas "profissionais" de psicologia, entrevistas essas que me recusei a assistir por ser do ramo e não agüentar mais esses "star professionals", pessoas que fazem “análises” acerca de realidades que conhecem superficialmente.
A próxima reportagem era acerca da menina Hamanda, que perdeu os pais e a irmã em um acidente trágico de caminhão. Primeiramente, que ato de extremo mau gosto e grande falta de sensibilidade entrevistar uma pessoa que acaba de perder toda a família em um acidente trágico. Pior ainda por se tratar de uma criança, que por sua condição, visivelmente ainda não se havia dado conta do que lhe ocorrera. Imagens do resgate foram mostradas. A menina deitada sob o corpo do pai morto! Os pezinhos dela sob os pés gelados do pai. Agora, alguém pode me explicar com que objetivo mostraram essa cena?
Continuando a reportagem, a menina voava de volta para Pernambuco, com vôo logicamente pago pela Globo, e; segundo a reportagem "voltava à vida normal"... Como assim, gente? Voltou à vida normal? O que é isso? A menina tem oito anos, perdeu a família, e como pode ter voltado à vida normal?
Ainda mostraram uma cena logicamente produzida que apresentava a avó, o avô e a menina "engessados" frente à TV, pois, novamente segundo a reportagem, é uma das coisas que mais gosta de fazer.... Meu Deus do Céu. Onde vamos parar?
Quando eu já me encontrava em lágrimas pela brutalidade dos conteúdos ali apresentados (seria essa a palavra? Não, apresentar seria transmitir a informação. Mas estranhamente, não consigo encontrar uma palavra para descrever o que estava sendo feito ali), os apresentadores prometeram então passar um filme que reconstituía a atrocidade que ocorreu com a menina Isabela Nardoni. Uma "reconstituição" feita no computador. Ali na chamada, já mostrava o "pai" com a menina no colo, jogando-a na cama e se dirigindo à janela. Ainda aos prantos, agora pensando na pobrezinha da Isabela e em seus familiares que já sofreram demais, desliguei a televisão e me sentei ao computador para escrever.
Não tenho palavras para expressar quão atônita me encontro. Escrever sempre me fez muito bem, entretanto, devido aos afazeres do cotidiano, não me sentia mais inspirada a fazê-lo. Precisei de um estímulo tão odioso para retomar essa atividade.
Será que as pessoas não percebem como a vida está sendo banalizada? A dor, a perda, minimizadas? Relações e valores sendo minados, através deste tipo de "notícia".
Não acredito que os pais estejam sempre certos, e que saibam de tudo, mas expor desta forma o cotidiano de uma família, e colocar pessoas que nem sequer conhecem os envolvidos pra fazer análises conjecturais acerca da situação? Minar a autoridade (diferente de autoritarismo) de mães, mostrar que a vida continua "normal" após a perda da família, reconstituir um crime repugnante, e exibi-lo em rede nacional.
Qual é o objetivo dessas “notícias”? Qual é a função social desse tipo de programa? Desde quando isso é entretenimento?
Se perguntam hoje em dia por que os filhos não respeitam mais os pais, por que as pessoas estão tão estressadas, por que os índices de pessoas em depressão vêm aumentando. Tenho certeza que o próprio Fantástico deve ter exibido reportagens inúteis sobre essas temáticas, sem nunca colocar em questão a responsabilidade de sua produção “jornalística” para esses fenômenos. E tudo em nome do ibope, do dinheiro, em vencer a concorrência.
Por esse motivo, é imperativo que não nos deixemos levar pela curiosidade mórbida inerente ao ser humano. Que vençamos essa característica mesquinha de nos sentir melhor assistindo à tragédia alheia.
Exijamos programações de qualidade, notícias verdadeiramente informativas, elucidativas, educativas, em detrimento desse mundo cão mostrado pelos “datenas” da vida. Passemos mais tempo com familiares, conversemos mais com eles, sejamos atenciosos para com eles. É necessário retornar ao hábito da leitura de bons livros, que estejamos em contato com a natureza, deixemos um pouco de lado a pressa do dia-a-dia. Respeitemos os mais novos, escutemos os mais velhos, mas sempre procurando discernir o que é melhor para nós mesmos. Vamos parar com os gritos e agressões. Passemos a elogiar mais aquelas características alheias que gostamos, e a entender as fraquezas como parte de um conjunto único, porém realmente Fantástico: a diversidade do ser humano.
Deixo aqui manifesto o meu horror à produção televisiva de nosso país. Há exceções, é claro, mas infelizmente, em sua maioria, são programas assistidos por aqueles que não precisam repensar suas opções de entretenimento. A rede globo de televisão (assim, em letras minúsculas mesmo), o datena, o pânico, são considerados paixões nacionais, e cultuados enquanto tal. Repensemos nossas escolhas.
Publicado na Seção de Cartas do Jornal Debate em 10/08/08

quarta-feira, 10 de setembro de 2008

Inspirações

Sabe como é, né? Escrevi um texto legal e a galerinha caiu em cima dizendo que eu levo jeito prá coisa, que eu devia publicar... e publiquei! Aí mais vozes se juntaram àquelas anteriores e não teve jeito, tive que voltar a escrever...
Escrever sempre fez parte de quem eu sou. Na verdade, de quem eu era. Muitas coisas me fizeram deixar de escrever. Eu achava que em sendo algo que me fazia tão bem, o que me fez abandonar esse costume não pode ter feito o mesmo bem. Na verdade, me fez o maior bem que tenho na vida, mas também me fez muito mal. A eterna dialética!!!!
Mas esse não é o momento de me recordar de lembranças tão doloridas. Esse é um momento muito importante, de reencontro, não só com o hábito (que eu pretendo resgatar) de escrever, mas também comigo mesma - seria um auto-resgate?
Muito provavelmente. Um momento de rever o que eu me tornei, de uma análise mais profunda sobre quem eu sou; e uma forma de, na tentativa de encontrar respostas, lançar mais perguntas...
Por que disso é feito a vida de todos nós... perguntas, perguntas e mais perguntas. Se pararmos para pensar, não existem conclusões absolutas. A única certeza que existe é a de que vivemos em incertezas...
E muito já foi feito na tentativa de responder àlgumas delas. A religião, a medicina, a astrologia, a psicologia, a física. Estão todas aí tentando produzir algumas respostas... O que é mais engraçado é que quantas mais certezas achamos que temos, tantas outras perguntas surgem delas. Uma teoria simples é capaz de provocar muitas incertezas. A incerteza é bela à medida em que cria condições para que vivamos de possibilidades. E não preciso dizer quão bonito é sonhar essas possibilidades. A possibilidade do reencontro tão desejado, a possibilidade do abraço tão esperado, a possibilidade do beijo roubado... Também conhecida como esperança.
Não há nada mais triste do que a morte da esperança. A esperança transcende o ser e inunda a alma de vontade. É um estado de espírito que deve ser alimentado, cuidado, e sempre, sempre conservado. Ela é a essência do ser humano, por que nela se inspira a ação. E nesses dias de tantos desencontros, de relações mais e mais superficiais, de tantos paradoxos e situações que não se resolvem, a ação precisa de muita, mas muita inspiração. Muita Mesmo!!!