segunda-feira, 29 de dezembro de 2008

Fim de Ano é muito bom!!!!


Fim de ano letivo... fechar média, conselho, recuperação, exame... Gente pedindo demissão, gente sendo mandada embora... Mudanças para o ano que vem... Algumas para melhor, outras para pior... Mas todas acompanhadas de muita insegurança...
Calor... Corpo melado, desodorante a perigo... Sede... Calor, calor, calor... Roupas desconfortáveis para não marcar o corpinho que não foi esculpido para o verão... 9 kilos depois de parar de fumar!!!
Lojas cheias... pessoas abarrotadas em caixas irritadas... fila no banco... fila na casa lotérica... fila na padaria... fila, fila, fila...
Reuniões familiares cheias de competitividade... O Zé tá na Europa, o Jão, na Austrália e o Tonho perdeu o emprego, mas tudo bem por que ele terá chances de se dedicar mais à família... O meu é melhor, e o seu é pior.... Eu tenho mais, eu posso mais.... Quem se atreve a competir???
E mesmo assim, mesmo com todos esses pequenos incovenientes, fim de ano é muito bom!!! Compras, compras e mais compras... 13° salário... decorações brancas que nos lembram lugares em que nunca estivemos, e que jamais visitaremos... mas que se tornaram mais uma fantasia natalina... Luzes em todos os lugares. E sempre, sempre há um ar de solidariedade, mesmo que essa não seja a prática... Ar de reunião de família, de amigos que confraternizam, de pessoas que se toleram... Por isso eu gosto dessa época do ano. E espero sempre que, assim como eu, as pessoas estejam tentando viver todo esse espírito natalino. E que, pelo menos uma vez ao ano, sejam tolerantes e solidárias. Como deveríamos ser o ano todo...

terça-feira, 11 de novembro de 2008

ENCONTRO IDEAL

Aconteceu há algum tempo. Mas foi tão cheio de emoção, tão intenso, que marcou e ficará para todo o sempre guardado em nós, como cicatriz que não dói, não coça... Mas está sempre ali, a recordar o ocorrido.
Depois de oito anos de total ausência e um reencontro cibernético que rendeu um ano de troca de emails, a ida ao aeroporto, a expectativa da chegada. Um olhar de reconhecimento, um sorriso acanhado, sem graça, o corpo inteiro trêmulo ao toque do abraço, um abraço apertado, um encontro sem palavras, a concretização de algo há tempos sonhado, esperado, idealizado. Palavras que não ocorreram, e olhares que se devoravam. Os únicos naquela imensidão de aeroporto. Como se todas as outras pessoas tivessem desaparecido. Silêncio. E o coração em disparada. A alma alvoroçada. Pedindo um beijo, um abraço, um toque. Suspense. Noite em claro, corpos ardendo, tão distantes e tão próximos. Após dois dias de espera ansiosa, uma viagem, o banco de trás do carro, chuva na estrada, e o tão esperado encontro de lábios, constatação do encontro de almas.
...´Cause nothing lasts forever and we both know hearts can change... And it´s hard to hold a candle in the cold November rain...

segunda-feira, 3 de novembro de 2008

Diálogos Fantásticos II

A Vitória há dias repetia uma palavra que nos causava muita curiosidade.... "Policê". Era "policê" prá cá, "policê" prá lá... Do nada, gritava um "policê"...
Hoje cheguei em casa e a minha mãe e a Vivi no maior dos papos. Minha mãe afirmou ter descoberto que "policê" era polícia, e que ela havia aprendido na escola, onde os meninos da classe dela brincavam de polícia e ladrão. A pequena confirmou a definição.

O diálogo, mais tarde, no banho:
- Filha, quer dizer que "policê" é polícia?
- É, mamãe.
- E você sabe o que é polícia?
- Sei, mamãe. É quando tem um carro na fente do nosso, e a gente fala: "Vamu, fio!"

De onde ela tirou isso, hein mamãe Priscila??????

segunda-feira, 20 de outubro de 2008

JOVENS BRILHANTES

Estive hoje assistindo a conferências elaboradas por meus alunos, a respeito da influência da mídia no modo de vida da sociedade. Cada um dos grupos ficou responsável por fazer essa análise em um determinado período de tempo. Fantástico o que adolescentes bem orientados podem produzir e aprender.
Falaram sobre diversos assuntos. Surgiu de tudo um pouco: globalização, comportamento adolescente, padrões de beleza estabelecidos pelas modelos, etc etc e tal. Lembrando que são alunos de quinze a dezessete anos.
Tenho a impressão que a única coisa que me interessava mesmo nessa idade eram algumas bandas de rock, trangredir normas estabelecidas pelos meus pais (pelo simples prazer da transgressão) e bater papo com minhas amigas. Não me lembro de termos discussões tão profundas em sala de aula.
Tenho que confessar que por vezes me esqueço que eles são tão novos. Falavam dos assuntos abordados com uma propriedade, demonstrando o quanto se esforçaram para realizar a conferência.
É gratificante assistir a seu crescimento pessoal, e observar seus rostos atentos e suas opiniões (muito bem elaboradas para a idade). Esse ano, me arrisquei pra valer com eles. Como ensino espanhol, passei um filme que exalta o Che Guevara, revelando-o uma pessoa pura e cheia de heroísmos (Diários de Motocicleta), e um documentário (Che: Anatomía de un Mito) revelando uma outra faceta do herói através de depoimentos de pessoas que lutaram com ele. Um tanto chocante para quem estava habituado à imagem de santo, mas muito convincente e eficiente no sentido de revelar que Che não era nada mais que um homem, com defeitos e virtudes.
Engraçado foi que em momento nenhum eu disse isso. Comecei todas as atividades relativas ao mito dizendo que meu objetivo não era, de maneira alguma, incutir-lhes o tipo de pessoa que ele foi, somente apresentar evidências de ambas as vertentes. Aquela que o idolatra, e aquela que o odeia.
Os resultados foram excepcionais. No fechamento do tema, a maioria dos alunos concluiu por si só aquilo que era meu objetivo mostrar. Que ele era um homem como tantos outros, hora "bom" e hora "mau". Que a história nem sempre é sincera. Que a midia articula para criar ícones, e as pessoas "compram" as idéias.
Meu trabalho não é fácil. Ele exige dedicação, esforço, estudo e muita, mas muita pesquisa mesmo. Mas ele me faz crescer, e meu pagamento está quando vejo meus alunos com os olhos estalados, escutando o que eu tenho a dizer. Quando percebo que o tema escolhido foi bem aceito, e eles sentem prazer em trabalhar comigo. Nem sempre tudo é um mar de rosas. Mas contribuir para a formação daqueles jovens brilhantes, saber que não vou passar em branco pela sua história de vida paga todo o trabalho e os obstáculos a serem transpostos.
Não há profissão mais bonita que a minha... Aos alunos que se vão, que iniciam uma nova etapa em suas vidas, boa sorte, e meus desejos sinceros de muito sucesso, sempre. Sei que vocês se darão bem na vida. Àqueles que ficam, espero que o ano que vem seja tão produtivo quanto o que passou. Para esses e também para aqueles que chegam agora,
MÃOS À OBRA, FOLKS!!!

segunda-feira, 13 de outubro de 2008

A DESCOBERTA DO MUNDO

A alegria mansa

Pois a hora escura, talvez a mais escura, em pleno dia, precedeu essa coisa que não quero sequer tentar definir. Em pleno dia era noite, e essa coisa que não quero ainda tentar definir é uma luz tranqüila dentro de mim, e a ela chamariam de alegria, alegria mansa. Estou um pouco desnorteada como se um coração me tivesse sido tirado, e em lugar dele estivesse agora a súbita ausência, uma ausência quase palpável do que era antes um órgão banhado da escuridão diurna da dor. Não estou sentindo nada. Mas é o contrário de um torpor. É um modo mais leve e mais silencioso de existir.
Mas estou também inquieta. Eu estava organizada para me consolar da angústia e da dor. Mas como é que me consolo dessa simples e tranqüila alegria? É que não estou habituada a não precisar de consolo. A palavra consolo aconteceu sem eu sentir, e eu não notei, e quando fui procurá-la, ela já se havia transformado em carne e espírito, já não existia mais como pensamento.
Vou então à janela, está chovendo muito. Por hábito estou procurando na chuva o que em outro momento me serviria de consolo. Mas não tenho dor a consolar.
Ah, eu sei. Estou agora procurando na chuva uma alegria tão grande que se torne aguda, e que me ponha em contato com uma agudez que se pareça com a agudez da dor. Mas é inútil a procura. Estou à janela e só acontece isto: vejo com olhos benéficos a chuva, e a chuva me vê de acordo comigo. Estamos ocupadas ambas em fluir. Quanto durará esse meu estado? Percebo que, com essa pergunta, estou apalpando meu pulso para sentir onde estará o latejar dolorido de antes. E vejo que não há o latejar da dor. Apenas isso: chove e estou vendo a chuva. Que simplicidade. Nunca pensei que o mundo e eu chegássemos a esse ponto de trigo. A chuva cai não porque está precisando de mim, e eu olho a chuva não porque preciso dela. Mas nós estamos tão juntas como a água da chuva está ligada à chuva. E eu não estou agradecendo nada. Não tivesse eu, logo depois de nascer, tomado involuntária e forçadamente o caminho que tomei - e teria sido sempre o que realmente estou sendo: uma camponesa que está num campo onde chove. Nem sequer agradecendo a Deus ou à natureza. A chuva também não agradece nada. Não sou uma coisa que agradece ter se transformado em outra. Sou uma mulher, sou uma pessoa, sou uma atenção, sou um corpo olhando pela janela. Ela é uma chuva. Talvez seja isso que se poderia chamar de estar vivo. Não mais que isto, mas isto: vivo. E apenas vivo é uma alegria mansa.

Clarice Linspector

terça-feira, 7 de outubro de 2008

O Avesso Dos Ponteiros (Ana Carolina)

Sempre chega a hora da solidão
Sempre chega a hora de arrumar o armário
Sempre chega a hora do poeta a plêiade
Sempre chega a hora em que o camelo tem sede
O tempo passa e engraxa a gastura do sapato
Na pressa a gente nem nota que a Lua muda de formato
Pessoas passam por mim pra pegar o metrô
Confundo a vida ser um longa-metragem
O diretor segue seu destino de cortar as cenas
E o velho vai ficando fraco esvaziando os frascos
E já não vai mais ao cinema

Tudo passa e eu ainda ando pensando em você
Tudo passa e eu ainda ando pensando em você

Penso quando você partiu
Assim... sem olhar pra trás
Como um navio que vai ao longe
E já nem se lembra do cais
Os carros na minha frente vão indo
E eu nunca sei pra onde
Será que é lá que você se esconde?

Tudo passa e eu ainda ando pensando em você
Tudo passa e eu ainda ando pensando em você

A idade aponta na falha dos cabelos
Outro mês aponta na folha do calendário
As senhoras vão trocando o vestuário
As meninas viram a página do diário
O tempo faz tudo valer a pena
E nem o erro é desperdício
Tudo cresce e o início
Deixa de ser início
E vai chegando ao meio
Aí começo a pensar que nada tem fim...

segunda-feira, 6 de outubro de 2008

Saudades

Foi-se. Chegou de repente, como um furacão, que não se espera, que não se sabe de onde ou a que veio. Da mesma forma foi embora. Arrebentou estruturas, demoliu construções. Me resta agora (re)configurar, (re)arranjar o que ficou, de forma a entender o acontecimento como parte da minha vida.
Saudades. De tudo. Sempre.
Mas a vida continua.
"As flores refletem bem o verdadeiro. Quem tenta possuir uma flor verá a sua beleza murchando. Mas quem olhar uma flor no campo permanecerá para sempre com ela. Você nunca será meu e por isso terei você para sempre". (Paulo Coelho)

domingo, 5 de outubro de 2008

Diálogos Fantásticos I


- Mamãe, eu vou à escolinha hoje?

- Não vai não, filha. Hoje é domingo, e aos domingos, ninguém vai à escola.

- Domingo? Quem deu esse nome?

- Quem deu o nome de domingo? (um momento de reflexão) Foram algumas pessoas que viveram há muitos anos atrás.

- Aaahh, e onde eles moram?

- Agora, eles moram com o papai do céu.

- E por que?

- Por que eles ficaram velhinhos, e cansados, e então, o papai do céu os levou para descansar junto dele.

- Eles viraram estrelinha?

- É isso mesmo, filha. Eles viraram estrelinhas.

- Acho que eu era estrelinha.

- É verdade. Você era uma estrelinha antes de vir para a barriga da mamãe.

- E por que eu vim?

- Por que a mamãe queria muito que você viesse.

- Eu também queria, mamãe. Ainda bem que eu vim, né? Assim, eu posso cuidar de você!

- ...

sábado, 4 de outubro de 2008

É Isso Aí

É isso aí
Como a gente achou que ia ser
A vida tão simples é boa
Quase sempre
É isso aí
Os passos vão pelas ruas
Ninguém reparou na lua
A vida sempre continua

Eu não sei parar de te olhar
Eu não sei parar de te olhar
Não vou parar de te olhar
Eu não me canso de olhar
Não sei parar
De te olhar

É isso aí
Há quem acredite em milagres
Há quem cometa maldades
Há quem não saiba dizer a verdade
É isso aí
Um vendedor de flores
Ensinar seus filhos a escolher seus amores

Eu não sei parar de te olhar
Eu não sei parar de te olhar
Não vou parar de te olhar
Eu não me canso de olhar
Não vou parar de te olhar

(Ana Carolina)

quarta-feira, 1 de outubro de 2008

O Eterno Retorno

"O eterno retorno é uma idéia misteriosa de Nietzsche que, com ela, conseguiu dificultar a vida a não poucos filósofos: pensar que, um dia, tudo o que se viveu se há-de repetir outra vez e que essa repetição se há-de repetir ainda uma e outra vez, até ao infinito! Que significado terá este mito insensato?" (Milan Kundera - A Insustentável Leveza do Ser)

"A vida é a arte do encontro, embora haja tanto desencontro pela vida" (Vinícius de Moraes)

Pensei o dia todo sobre essas duas citações. A noite passada fui surpreendida com uma mensagem simples, porém muito direta em meu celular. "Se estiver acordada, me liga! Agora!"

Trêmula, sem pensar muito sobre o assunto, obedeci à ordem. Havia anos que não recebia notícias. Não, não. Na verdade, havia anos que não recebia notícias até um reencontro que se deu há cerca de três meses. Foi uma ocasião cheia de emoção, tão contida que transbordava em cada um de nossos gestos e palavras. Não nos foi possível escondê-la. De ninguém.

Achei que ficaríamos por aí. Um reencontro, muitos equívocos esclarecidos, a troca de carinhos. Não ficamos. Ontem, ao telefone, disse que estava por perto e queria me ver no dia seguinte. Não sei se minha vontade era a mesma. Mas aquiesci, uma vez tratar-se de uma pessoa tão importante na minha vida, que significou tanto por tanto tempo para mim. Não sei qual seu papel nela hoje em dia, e me reservo o direito de não pensar sobre o assunto.

Tenho por princípio não aceitar pontos finais. Acredito sim que, como já dizia o poeta, a vida seja a arte do encontro, e do reencontro. E a própria vida, felizmente, me deu motivos para pensar assim.

O eterno retorno ao qual se refere Nietzche é de uma magnitude reconfortante, apesar de Tereza, personagem de Milan Kundera no livro citado, considerá-lo um fardo pesadíssimo. Imagino que a leveza ou o peso do fardo depende de como as experiências são vivenciadas. Para mim, é muito importante saber que aquilo que vivi não se perde, e que sempre, em absolutamente todos os casos, há a possibilidade do resgate.

Ahhh... o (re)encontro? Não rolou... Ainda!!!! E que venha o fim de semana!!!

sábado, 27 de setembro de 2008





Eu quero uma casa no campo
Onde eu possa compor muitos rocks rurais
E tenha somente a certeza
Dos amigos do peito e nada mais
Eu quero uma casa no campo
Onde eu possa ficar no tamanho da paz
E tenha somente a certeza
Dos limites do corpo e nada mais
Eu quero carneiros e cabras pastando solenes
No meu jardim
Eu quero o silêncio das línguas cansadas
Eu quero a esperança de óculos
Meu filho de cuca legal
Eu quero plantar e colher com a mão
A pimenta e o sal
Eu quero uma casa no campo
Do tamanho ideal, pau-a-pique e sapé
Onde eu possa plantar meus amigos
Meus discos e livros
E nada mais

sexta-feira, 26 de setembro de 2008

Despedida


E no meio dessa confusão alguém partiu sem se despedir; foi triste. Se houvesse uma despedida talvez fosse mais triste, talvez tenha sido melhor assim, uma separação como às vezes acontece em um baile de carnaval — uma pessoa se perde da outra, procura-a por um instante e depois adere a qualquer cordão. É melhor para os amantes pensar que a última vez que se encontraram se amaram muito — depois apenas aconteceu que não se encontraram mais. Eles não se despediram, a vida é que os despediu, cada um para seu lado — sem glória nem humilhação.

Creio que será permitido guardar uma leve tristeza, e também uma lembrança boa; que não será proibido confessar que às vezes se tem saudades; nem será odioso dizer que a separação ao mesmo tempo nos traz um inexplicável sentimento de alívio, e de sossego; e um indefinível remorso; e um recôndito despeito.

E que houve momentos perfeitos que passaram, mas não se perderam, porque ficaram em nossa vida; que a lembrança deles nos faz sentir maior a nossa solidão; mas que essa solidão ficou menos infeliz: que importa que uma estrela já esteja morta se ela ainda brilha no fundo de nossa noite e de nosso confuso sonho?

Talvez não mereçamos imaginar que haverá outros verões; se eles vierem, nós os receberemos obedientes como as cigarras e as paineiras — com flores e cantos. O inverno — te lembras — nos maltratou; não havia flores, não havia mar, e fomos sacudidos de um lado para outro como dois bonecos na mão de um titeriteiro inábil.

Ah, talvez valesse a pena dizer que houve um telefonema que não pôde haver; entretanto, é possível que não adiantasse nada. Para que explicações? Esqueçamos as pequenas coisas mortificantes; o silêncio torna tudo menos penoso; lembremos apenas as coisas douradas e digamos apenas a pequena palavra: adeus.

A pequena palavra que se alonga como um canto de cigarra perdido numa tarde de domingo.

Rubem Braga

Extraído do livro "A Traição das Elegantes", Editora Sabiá – Rio de Janeiro, 1967, pág. 83.

sábado, 20 de setembro de 2008

Eis que ela chega: A devassadora Tpm


Dia desses estava no salão de cabeleireiros, indiscutível na preferência das mulheres para discussões profundas e filosóficas acerca de assuntos corriqueiros tais como trabalho, casa, relacionamento e filhos; quando uma amiga comentou que seu filho lhe havia perguntado por que ela andava tão irritada. Nos contou, em meio a gargalhadas, que respondeu a ele: "Filho, a mulher tem três fases distintas no mês. Durante a primeira delas, ela quer matar alguém. Na segunda, ela quer se jogar de uma ponte. E na terceira, ela tem grandes possibilidades de realmente cometer um assassinato." O menino, temeroso, lhe perguntou em que fase ela se encontrava. "Na terceira", disse ela, ao que ele saiu em disparada e não foi mais visto durante o dia todo. Essa terceira fase é a imbatível Tpm, aquela na qual a mulher sente que todos as pessoas do mundo se uniram para fazer-lhe algum tipo de mal e minar sua auto-estima, destruir o que lhe resta de auto-controle, e contribuir para que seu dia se torne cada vez mais insuportável.

Comédia e exageros à parte, quero saudar essa grande companheira que veio me visitar hoje. Ela chegou de mansinho a noite passada, foi entrando sem bater e cá está. Deve ficar bem uns dois ou três dias, até que aquela outra visita, igualmente desagradável, mas muito menos prejudicial, o Xico, chegue. Apesar de trazer consigo sentimentos bastante negativos, a Tpm é uma companheirona. Faz-se sentir o tempo todo. Foi responsável por uma grande discussão na noite passada, uma discussão idiota e sem sentido, que acabou com todos os envolvidos magoados. Foi responsável também por um momento de muita irritação com um amigo hoje, que não merecia minha falta de educação. E por um dia todo largada na cama, chorando por qualquer comercial de margarina.

Engraçado o poder que os hormônios exercem sobre as mulheres. Sabemos o que se passa, é a Tpm, sabemos que é passageiro, dura somente dois ou três dias, mas ainda assim nos foge a solução para esses repentes. Lá no fundo, sabemos que a culpa não é das pessoas que "nos irritam", que não estamos tão feias e tão gordas quanto achamos, que nossas amigas não estão tentando nos sacanear. Mas a razão diz uma coisa, e a emoção outra. A gente até racionaliza: "Nossa, preciso me controlar, a tpm esse mês tá demais", mas é impossível. Sabe aqueles desenhos animados, nos quais o personagem tem um diabinho em seu ombro, dizendo que ele tem que ser uma pessoa má? Pois é, a Tpm é esse diabinho, se aloja em nossos ombros por dois dias, e fica repetindo em nossa orelha, o tempo todo, coisas do tipo: "Você é feia!", "Tem certeza que vai repetir, olha o tamanho que você está!!!", "Ninguém gosta de você, por que uma pessoa tão legal iria se interessar verdadeiramente por um lixo desses?", "Você não vai reagir? É uma tonta mesmo, por isso todo mundo te faz de palhaça", e otras cositas más.

Sempre ouvi que mulher grávida fica sensível... Que tem que poupá-la, cuidar dela, dar-lhe atenção.... Mas discordo. Pelo menos no meu caso, fico muito mais sensível durante a tpm do que quando estava grávida. Infinitamente mais. A gravidez foi um momento lindo, de muita fé renovada, muito carinho, muita atenção. Ao passo que a mulher em tpm é a frustrada, a irritada, a chata. Ninguém suporta mulher em tpm. Nem ela se suporta. E isso acontece uma vez ao mês.

Da mesma forma que chega, de repente, vai embora. E então, a mulher-fênix ressurge das cinzas, faz o cabelo, as unhas, se depila, compra uma roupa nova, sai linda e perfumada, segura de si, com a auto-estima renovada....

Quero ser sempre essa aí. Não quero ser a chata em tpm. Decidido, a partir desse mês não menstruo mais. Cara amiga, prepare-se, essa é a última visita que você me faz durante um bom tempo!!! Vade Retro!!!

quinta-feira, 18 de setembro de 2008

Os Ninguéns

















As pulgas sonham com comprar um cão, e os ninguéns com deixar a pobreza, que em algum dia mágico a sorte chova de repente, que chova a boa sorte a cântaros; mas a boa sorte não chove ontem, nem hoje, nem amanhã, nem nunca, nem uma chuvinha cai do céu da boa sorte, por mais que os ninguéns a chamem e mesmo que a mão esquerda coce, ou se levantem com o pé direito, ou comecem o ano mudando de vassoura.

Os ninguéns: os filhos de ninguém, os donos de nada.
Os ninguéns: os nenhuns, correndo soltos, morrendo a vida, fodidos e mal pagos:
Que não são, embora sejam.
Que não falam idiomas, falam dialetos.
Que não praticam religiões, praticam supertições.
Que não fazem arte, fazem artesanato.
Que não são seres humanos, são recursos humanos.
Que não têm cultura, têm folclore.
Que não têm cara, têm braços.
Que não têm nome, têm número.
Que não aparecem na história universal, aparecem nas páginas policiais da imprensa local.
Os ninguéns, que custam menos do que a bala que os mata.



Eduardo Galeano

sábado, 13 de setembro de 2008

Desabafo

Há muito tempo não assisto televisão, principalmente canais abertos. Gosto de alugar filmes ou ver sitcoms na TV por assinatura. Por acaso hoje a TV estava ligada na Rede Globo, o Fantástico no ar, e comecei a prestar atenção. O programa estava anunciando uma matéria a respeito do relacionamento entre mães e filhas. Sob a ótica das filhas. Mostraram comunidades criadas no Orkut: "Minha mãe é neurótica", "Minha mãe grita por qualquer coisa", etc etc e tal. E entrevistaram as adolescentes, que diziam que as mães eram estressadas, brigavam por nada... Uma delas disse que a mãe gritava com ela por que pedia que ela lavasse a louça e ela queria ficar mais um pouco no computador. Depois entrevistavam supostas "profissionais" de psicologia, entrevistas essas que me recusei a assistir por ser do ramo e não agüentar mais esses "star professionals", pessoas que fazem “análises” acerca de realidades que conhecem superficialmente.
A próxima reportagem era acerca da menina Hamanda, que perdeu os pais e a irmã em um acidente trágico de caminhão. Primeiramente, que ato de extremo mau gosto e grande falta de sensibilidade entrevistar uma pessoa que acaba de perder toda a família em um acidente trágico. Pior ainda por se tratar de uma criança, que por sua condição, visivelmente ainda não se havia dado conta do que lhe ocorrera. Imagens do resgate foram mostradas. A menina deitada sob o corpo do pai morto! Os pezinhos dela sob os pés gelados do pai. Agora, alguém pode me explicar com que objetivo mostraram essa cena?
Continuando a reportagem, a menina voava de volta para Pernambuco, com vôo logicamente pago pela Globo, e; segundo a reportagem "voltava à vida normal"... Como assim, gente? Voltou à vida normal? O que é isso? A menina tem oito anos, perdeu a família, e como pode ter voltado à vida normal?
Ainda mostraram uma cena logicamente produzida que apresentava a avó, o avô e a menina "engessados" frente à TV, pois, novamente segundo a reportagem, é uma das coisas que mais gosta de fazer.... Meu Deus do Céu. Onde vamos parar?
Quando eu já me encontrava em lágrimas pela brutalidade dos conteúdos ali apresentados (seria essa a palavra? Não, apresentar seria transmitir a informação. Mas estranhamente, não consigo encontrar uma palavra para descrever o que estava sendo feito ali), os apresentadores prometeram então passar um filme que reconstituía a atrocidade que ocorreu com a menina Isabela Nardoni. Uma "reconstituição" feita no computador. Ali na chamada, já mostrava o "pai" com a menina no colo, jogando-a na cama e se dirigindo à janela. Ainda aos prantos, agora pensando na pobrezinha da Isabela e em seus familiares que já sofreram demais, desliguei a televisão e me sentei ao computador para escrever.
Não tenho palavras para expressar quão atônita me encontro. Escrever sempre me fez muito bem, entretanto, devido aos afazeres do cotidiano, não me sentia mais inspirada a fazê-lo. Precisei de um estímulo tão odioso para retomar essa atividade.
Será que as pessoas não percebem como a vida está sendo banalizada? A dor, a perda, minimizadas? Relações e valores sendo minados, através deste tipo de "notícia".
Não acredito que os pais estejam sempre certos, e que saibam de tudo, mas expor desta forma o cotidiano de uma família, e colocar pessoas que nem sequer conhecem os envolvidos pra fazer análises conjecturais acerca da situação? Minar a autoridade (diferente de autoritarismo) de mães, mostrar que a vida continua "normal" após a perda da família, reconstituir um crime repugnante, e exibi-lo em rede nacional.
Qual é o objetivo dessas “notícias”? Qual é a função social desse tipo de programa? Desde quando isso é entretenimento?
Se perguntam hoje em dia por que os filhos não respeitam mais os pais, por que as pessoas estão tão estressadas, por que os índices de pessoas em depressão vêm aumentando. Tenho certeza que o próprio Fantástico deve ter exibido reportagens inúteis sobre essas temáticas, sem nunca colocar em questão a responsabilidade de sua produção “jornalística” para esses fenômenos. E tudo em nome do ibope, do dinheiro, em vencer a concorrência.
Por esse motivo, é imperativo que não nos deixemos levar pela curiosidade mórbida inerente ao ser humano. Que vençamos essa característica mesquinha de nos sentir melhor assistindo à tragédia alheia.
Exijamos programações de qualidade, notícias verdadeiramente informativas, elucidativas, educativas, em detrimento desse mundo cão mostrado pelos “datenas” da vida. Passemos mais tempo com familiares, conversemos mais com eles, sejamos atenciosos para com eles. É necessário retornar ao hábito da leitura de bons livros, que estejamos em contato com a natureza, deixemos um pouco de lado a pressa do dia-a-dia. Respeitemos os mais novos, escutemos os mais velhos, mas sempre procurando discernir o que é melhor para nós mesmos. Vamos parar com os gritos e agressões. Passemos a elogiar mais aquelas características alheias que gostamos, e a entender as fraquezas como parte de um conjunto único, porém realmente Fantástico: a diversidade do ser humano.
Deixo aqui manifesto o meu horror à produção televisiva de nosso país. Há exceções, é claro, mas infelizmente, em sua maioria, são programas assistidos por aqueles que não precisam repensar suas opções de entretenimento. A rede globo de televisão (assim, em letras minúsculas mesmo), o datena, o pânico, são considerados paixões nacionais, e cultuados enquanto tal. Repensemos nossas escolhas.
Publicado na Seção de Cartas do Jornal Debate em 10/08/08

quarta-feira, 10 de setembro de 2008

Inspirações

Sabe como é, né? Escrevi um texto legal e a galerinha caiu em cima dizendo que eu levo jeito prá coisa, que eu devia publicar... e publiquei! Aí mais vozes se juntaram àquelas anteriores e não teve jeito, tive que voltar a escrever...
Escrever sempre fez parte de quem eu sou. Na verdade, de quem eu era. Muitas coisas me fizeram deixar de escrever. Eu achava que em sendo algo que me fazia tão bem, o que me fez abandonar esse costume não pode ter feito o mesmo bem. Na verdade, me fez o maior bem que tenho na vida, mas também me fez muito mal. A eterna dialética!!!!
Mas esse não é o momento de me recordar de lembranças tão doloridas. Esse é um momento muito importante, de reencontro, não só com o hábito (que eu pretendo resgatar) de escrever, mas também comigo mesma - seria um auto-resgate?
Muito provavelmente. Um momento de rever o que eu me tornei, de uma análise mais profunda sobre quem eu sou; e uma forma de, na tentativa de encontrar respostas, lançar mais perguntas...
Por que disso é feito a vida de todos nós... perguntas, perguntas e mais perguntas. Se pararmos para pensar, não existem conclusões absolutas. A única certeza que existe é a de que vivemos em incertezas...
E muito já foi feito na tentativa de responder àlgumas delas. A religião, a medicina, a astrologia, a psicologia, a física. Estão todas aí tentando produzir algumas respostas... O que é mais engraçado é que quantas mais certezas achamos que temos, tantas outras perguntas surgem delas. Uma teoria simples é capaz de provocar muitas incertezas. A incerteza é bela à medida em que cria condições para que vivamos de possibilidades. E não preciso dizer quão bonito é sonhar essas possibilidades. A possibilidade do reencontro tão desejado, a possibilidade do abraço tão esperado, a possibilidade do beijo roubado... Também conhecida como esperança.
Não há nada mais triste do que a morte da esperança. A esperança transcende o ser e inunda a alma de vontade. É um estado de espírito que deve ser alimentado, cuidado, e sempre, sempre conservado. Ela é a essência do ser humano, por que nela se inspira a ação. E nesses dias de tantos desencontros, de relações mais e mais superficiais, de tantos paradoxos e situações que não se resolvem, a ação precisa de muita, mas muita inspiração. Muita Mesmo!!!