terça-feira, 17 de maio de 2011

A SOMBRA DAS COISAS

Este é um texto que trabalho sempre nas aulas do oitavo ano. Como não o achei em português, quis traduzi-lo e deixá-lo aqui para que mais pessoas possam desfrutar de sua beleza e simplicidade.

          Carmelo nasceu sem sombra. O médico percebeu na mesma hora. Comunicou o pai, que não compreendeu. Todos em sua família tinham tido sombra até então, era a primeira vez que algo assim lhe acontecia. Lançou um olhar acusador à sua esposa, que não sabia o que dizer. A quem terá puxado, sem sombra, perguntava-se o pai desolado.

         Os melhores médicos da cidade estudaram seu caso, mas pouco puderam fazer. Os pais de Carmelo reuniram o dinheiro para levá-lo a outro país, onde um médico especialista no assunto tinha resolvido casos parecidos. Houve experiências, lhes explicou o médico, de transplantes de sombra exitosos. Teremos que encontrar uma que se adapte ao tamanho de seu filho, à sua altura, a seu perfil. Mas Carmelo recusou todas as sombras. O caso de seu filho é particularmente agudo, lhes disse o médico enquanto cobrava a consulta.

         Carmelo cresceu sem sombra. Seus companheiros de escola logo se aperceberam e passaram a rir dele. “Por que eu não tenho sombra?”, perguntava Carmelo todas as noites, entre lágrimas, à sua mãe. Por que seu coração é tão grande e sua alma tão sincera, lhe dizia ela, que se pode ver através de você. Carmelo se converteu em um jovem esquivo, evasivo. Somente saía à rua nos dias nublados, quando as nuvens roubavam as sombras de todos e o faziam apenas mais um.

          Em um maravilhoso dia sem sol, em um parque próximo, Carmelo conheceu a Tulipán, tão cheia de adolescência, tão doce, formosa como uma nuvem. Conversaram e deram muitas risadas, buscaram cumplicidades e fizeram acordos, trocaram olhares, batidas, segredos, fizeram um pacto sem que o percebessem. Combinaram um encontro para outro dia, na esquina da Alameda com Hidalgo, junto a um semáforo e uma banca de flores, onde trabalhava uma senhora corcunda.

          Carmelo aguardava, sofria em silêncio. Os dias passavam ensolarados e no rádio, diziam que assim seguiriam por muito tempo. Na noite anterior ao encontro, Carmelo não pode dormir. Rezou para que amanhecesse nublado, mas não foi assim. Aquele foi o dia mais radiante e claro de todos que a cidade já havia presenciado. O céu vestiu nessa manhã seu melhor terno azul e Carmelo foi ao encontro, sem sombra e amedrontado. Esteve a ponto de pintá-la no chão, mas desistiu. As horas, por sua vez, fariam virar as outras sombras, deixando a sua em postiça evidência. E o medo venceu o amor. Carmelo preferiu conservar intacta a lembrança de seu maravilhoso e nublado encontro no parque. Antes que Tulipán chegasse, Carmelo, bêbado de pena, se foi para sempre.

          Se tivesse ficado ali quando a menina apareceu na esquina, atribulada, atrasada, Carmelo teria pensado que estava ainda mais linda que da outra vez. Se estivesse ali, teria descoberto que Tulipán era como ele, uma menina sem sombra, e que juntos, talvez, poderiam ter vivido uma vida maravilhosa, de nublado porvir, em algum país ao norte, onde o sol, em consideração a seu amor, pensaria seis vezes antes de sair.

Por: Fernando León de Aranoa

2 comentários:

Mona disse...

gostei muito do texto, mas poderia ter um final feliz ;D

Priscila Figueira disse...

Também esperei um final feliz quando li pela primeira vez esse conto, Mona! No entanto, fica aquele gostinho do "e se?", daquilo que não pode mais ser e nunca se saberá o que seria, acho que uma das maiores angústias do ser humano. Não poder voltar, decidir diferente, ter uma nova chance de fazer algo acontecer...
Beijão, obrigada por comentar!